Maria da Penha: fogo vira arma para intimidar mulheres e ocultar crimes no DF

Peritos especialistas da PCDF constaram que maioria dos incêndios em residências é motivada por brigas que envolvem ciúmes e fim da relação

Peritos criminais da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) constataram que a maioria das ocorrências de incêndios em residências registradas na capital da República é motivada por discussões entre casais. Grande parte é causada pelos homens, em razão de discussões motivadas por ciúmes ou términos de relacionamento. Segundo os profissionais, o maior número de chamadas do DF ocorre no Itapoã e no Paranoá.

“Geralmente, durante uma briga, os homens colocam fogo em objetos com grande potencial combustível, como sofás e camas”, explica a perita criminal Camila Guesine. De meados de 2018 até agora, os peritos atenderam duas ocorrências por semana envolvendo a Lei Maria da Penha.

Em alguns períodos, a equipe da seção especializada em incêndios e explosões ligada ao Instituto de Criminalística (IC) é acionada para atender mais de um caso por dia.

“Nós atendemos apenas uma etapa de uma história que pode ter um final trágico: o feminicídio. Muitas vezes, chegamos a ir mais de uma vez na mesma casa” Camila Guesine, perita criminal

Camila foi uma das responsáveis pela análise do caso da moradora da 310 Norte Veiguima Martins, 56 anos. A mulher foi esfaqueada e morta pelo marido, na madrugada de 30 de janeiro. Após o crime, José Bandeira da Silva, 80, colocou fogo no corpo da vítima, que estava em um dos quartos do apartamento.

As chamas atingiram três cômodos do imóvel e a fumaça invadiu os corredores. Assustados, os vizinhos saíram correndo do prédio. Veiguima já tinha denunciado as agressões do marido à polícia.

“Entendemos que ali houve uma tentativa de ocultação de cadáver, caso em que também atuamos. Muitas pessoas ainda acreditam que as chamas conseguem destruir todas as provas, o que não é verdade. Conseguimos colher uma série de evidências”, revela Camila.

O perito criminal Vitor Rossi, chefe da Seção de Incêndios e Explosivos, ressalta que o fogo em casos de Maria da Penha também tem um valor simbólico. “O agressor, muitas vezes, procura uma forma de ameaçar a vítima e trazer pânico. Ao quebrar uma televisão, por exemplo, o objeto cai no chão, mas pode ser retirado. Já o fogo traz medo, resulta em grande quantidade de fumaça, marca para sempre as paredes dessas casas”, detalha.

Ocorrências
Em 31 de março, um homem colocou fogo no quarto da casa onde mora com a companheira, no Condomínio Del Lago, no Itapoã. As chamas foram apagadas por um vizinho que estava dormindo e acordou ao sentir o cheiro da fumaça. Ele correu até o local e conteve o incêndio usando baldes de água.

A mulher do agressor contou à polícia que, em 2018, o namorado havia quebrado a televisão da casa. Acrescentou que, no dia do crime, os dois discutiram e ela quis terminar a relação, que durava um ano e meio. Então, foi para a casa da irmã depois da briga.

Só que o homem apareceu na porta, gritando: “Sua safada, eu vou te matar. Vou pôr fogo naquela casa. Eu posso até ser preso, mas vou te matar”. Ele chegou a jogar pedras na residência. Depois de um momento, voltou para o imóvel do casal e colocou fogo nos pertences da vítima.

Ataques
Na semana anterior, uma moradora do Itapoã procurou a polícia para denunciar o marido. Ela contou que o homem sempre foi violento e passou a lhe fazer ameaças de morte. Segundo a vítima, ele dizia: “Eu vou te matar. Se você não ficar comigo, não vai ficar com ninguém. Se eu for preso, vou sair e te matar”. Durante uma discussão, o agressor teria pegado uma faca de açougueiro e batido nas mãos dela.

Após o ataque, o homem prendeu a ex-mulher e a filha na residência, incendiou um colchão, ligou o gás de cozinha e fugiu com as chaves da casa. As duas foram socorridas por uma vizinha. A vítima afirmou ter sido agredida outras vezes e que tem medida protetiva contra o autor.

Em fevereiro, um policial militar reformado do estado de Goiás colocou fogo na casa da família, no Paranoá. Ele espalhou gasolina e incendiou o imóvel após discutir e agredir a mulher. A vítima relatou que foi ameaçada diversas vezes e contou ter medo do marido.

Dois feminicídios foram registrados na região este ano. “Não está escrito no rosto de ninguém quem é homicida. Percebemos que os familiares não imaginavam ou não acreditavam que o homem poderia chegar a esse ponto, de matar a mulher. É importante fazer o alerta para que as mulheres, ao primeiro sinal de violência, busquem ajuda”, alerta a delegada-chefe da 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá), Jane Klebia.

Cenário de destruição
Os peritos criminais trabalham em locais onde há destruição parcial ou completa. Para isso, atuam sempre equipados com máscaras, luvas, roupas táticas e coturno. Os principais equipamentos de trabalho são pá, enxada, peneira e máquina fotográfica. A perícia dura em média um dia, a depender do grau de destruição e do tamanho da área atingida.

“À primeira vista parece que queimou tudo, com um cenário completamente preto. Mas temos que colocar as mãos na massa. Cavar. Às vezes, o que precisamos está junto ao solo, como um filtro de cigarro. Costumo dizer que é quase um trabalho arqueológico e os nossos fósseis são frágeis. Não podemos ter pressa, porque o vestígio que precisamos encontrar pode ser facilmente descartado durante uma escavação”, conta Vitor Rossi.

Explosões
Os peritos também atuam em casos de explosões a caixas eletrônicos, como o que aconteceu em 28 de março no Royal Tulip. Quatro bandidos explodiram três terminais. Os assaltantes estavam fortemente armados e renderam os funcionários do hotel, conhecido por hospedar empresários, artistas e autoridades que visitam a capital do país.

Camila explica que os peritos analisam o tipo de explosivo usado, vídeos, identificam o modus operandi da quadrilha e recolhem digitais. “As ocorrências diminuíram bastante. Estamos com média de uma por mês. Fica uma equipe de sobreaviso só para atender esses casos. Trata-se de um crime premeditado e praticado por quadrilhas extremamente organizadas, que nunca agem apenas uma vez”, ressalta a perita.

Desde 2017, os casos de arrombamentos e explosões de caixas eletrônicos vêm caindo. Naquele ano, 20 ocorrências foram registradas no DF, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP). Em 2018, o número passou para oito. Neste ano, até agora, foram registrados três casos. Os explosivos usados pelos criminosos são encontrados em pedreiras ou fabricados de forma artesanal.

“Apenas o detonador, que não tem nem 1 g de explosivo, já é capaz de arrancar uma mão. A porta do caixa eletrônico pesa, em média, 60 kg. Em uma cena de crime, já encontrei ela a 25 metros de distância. Isso depois de atravessar uma parede de alvenaria”, alerta Vitor Rossi.

O maior problema é o risco que as pessoas correm. Os explosivos não são como vemos na televisão. Eles são feitos para destruir. Aquela bola de fogo arremessa a pessoa para trás e pode fazer centenas de vítimas. Só que percebemos que essas quadrilhas estão cada vez mais ousadas. Agem em locais que ninguém imagina, como o Palácio do Buriti, hotéis e clubes de luxo”. Perito criminal Vitor Rossi

As ações criminosas costumam durar, no máximo, três minutos. Apesar do risco, a busca por dinheiro fácil segue atraindo os bandidos. O Instituto de Criminalística detectou a evolução de alguns bandos na prática de crimes contra terminais eletrônicos.

“É um desafio porque a maioria desses suspeitos já passaram pela prisão, sabem exatamente as evidências que vamos procurar e se especializam cada vez mais. Nossa equipe está em constante trabalho de inovação e qualificação”, pontua Rossi.

Atentados terroristas
Especializados em bombas, os peritos criminais são acionados em casos de ameaça ou ataques terroristas. Em dezembro do ano passado, um suposto grupo terrorista assumiu a autoria de atentado a bomba ao lado de uma igreja de Brazlândia. Eles também ameaçaram promover um ataque durante a posse do presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Uma pessoa que passava em frente ao local estranhou a presença de uma mochila deixada ao lado do Santuário Menino Jesus e acionou a Polícia Militar. Um policial verificou o que havia dentro e encontrou um artefato explosivo. Os militares isolaram as ruas e o material foi detonado.

“Em Brazlândia, atuamos em uma ocorrência de bomba funcional que tinha um temporizador. Ela foi montada por alguém que conhece muito ou é muito bom de seguir instrução. Continha um sistema de proteção para o terrorista não explodir antes da hora. Os pregos em seu interior causariam dano a um grande número de pessoas. Foi um ato pensado e tiveram muita sorte de o artefato não ter detonado”, contou Rossi.

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